Feminicídio em Três Lagoas: Uma Tragédia Anunciada
Três Lagoas enfrenta um momento de luto com a perda de Beatriz Benevides da Silva, de 18 anos, a primeira vítima de feminicídio no município em 2026. Este caso, longe de ser isolado, integra uma estatística crescente que revela uma problemática profunda na sociedade brasileira.
Beatriz foi assassinada por enforcamento no apartamento que dividia com seu namorado, localizado no Conjunto Habitacional Novo Oeste. Welington Patrezi Batista Pereira, de 20 anos, o suspeito, confessou o crime à Polícia Militar e encontra-se sob custódia da Justiça. Mato Grosso do Sul contabiliza, nos primeiros 40 dias de 2026, quatro casos de feminicídio.
No dia seguinte ao crime em Três Lagoas, Simoni Trigueiro, auxiliar de limpeza de 38 anos, foi encontrada morta em Andradina (SP), vítima de asfixia. O principal suspeito, com histórico de homicídio contra mulher em 2005, foi detido em Água Clara. Em São Paulo, o assassinato de Júlia Gabriela Bravin Trovão em Botucatu, perpetrado pelo ex-companheiro, também causou grande comoção. Estes casos, embora distintos, compartilham raízes na busca por controle, na posse e na dificuldade em aceitar o término de relacionamentos.
Os números corroboram a gravidade da situação. Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou 39 vítimas de feminicídio, um aumento de 11% em relação ao ano anterior, conforme dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública. Três Lagoas contabilizou 1.108 ocorrências de violência doméstica no mesmo período, e já nos primeiros meses de 2026, foram registradas 171 ocorrências.
A nível nacional, o cenário é igualmente preocupante. O Painel de Violência contra a Mulher do Conselho Nacional de Justiça indica que a Justiça brasileira julgou, em média, 42 casos de feminicídio por dia em 2025, totalizando mais de 15 mil processos enquadrados na Lei do Feminicídio. Adicionalmente, foram concedidas 621 mil medidas protetivas, representando uma média de 70 por hora. Apesar disso, mulheres continuam a ser mortas mesmo após buscarem a proteção do Estado.
A mera concessão de medidas protetivas mostra-se insuficiente. Dispositivos como tornozeleiras eletrônicas, patrulhas especializadas e agilidade judicial são importantes, mas não resolvem o problema diante de uma cultura que normaliza a violência e o controle. Especialistas em gênero alertam que o machismo se manifesta de diversas formas, não apenas na agressão física, mas também em comentários aparentemente inofensivos, na culpabilização da vítima e na omissão diante de atos de violência.
Às vésperas do mês de março, marcado pelo Dia Internacional da Mulher, é imperativo transcender discursos e ações simbólicas. O combate ao feminicídio requer políticas públicas consistentes, orçamento específico, colaboração entre os Poderes e investimento contínuo em educação para a igualdade de gênero, além de punição rigorosa aos agressores e acompanhamento eficaz das medidas judiciais.
Entretanto, a mudança cultural é essencial. A violência contra a mulher tem início no desrespeito diário, na ideia de posse e na crença da superioridade masculina. A relativização desses comportamentos pela sociedade contribui para a escalada da violência.
Cada feminicídio representa uma falha coletiva na prevenção. É inaceitável que os números aumentem a cada ano e que mulheres continuem sendo silenciadas pela violência.
O país deve decidir se continuará a agir somente após a tragédia ou se assumirá um compromisso concreto e permanente para impedir que outras vidas sejam ceifadas da mesma forma.