Curadoria Inteligente
18/03/2026 | 7 min leitura

Paralisação nacional de caminhoneiros ganha força devido ao aumento do diesel

Caminhoneiros articulam paralisação nacional devido à alta do diesel e insatisfação com o governo. Setor de transporte em alerta.

Paralisação nacional de caminhoneiros ganha força devido ao aumento do diesel

Uma nova onda de paralisações entre os caminhoneiros está se intensificando por todo o país, motivada, sobretudo, pelo aumento significativo no preço do diesel e pelo descontentamento da categoria com as ações do governo federal. Embora uma data exata não tenha sido definida, líderes do setor sinalizam que o movimento deverá ocorrer nas próximas semanas.

A organização ganhou intensidade após um encontro no Porto de Santos, considerado a primeira reunião nacional para planejar a mobilização da categoria. A reunião juntou transportadores autônomos, cooperativas e representantes de diferentes estados, o que representa um passo importante na organização do movimento.

Conforme o presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores, Wallace Landim, conhecido como Chorão, a maioria das lideranças presentes se manifestou a favor da paralisação.

“Hoje, grande parte das lideranças dos Estados envolvidos decidiu que fará uma paralisação. No entanto, precisamos cumprir trâmites legais, dialogar com outras entidades e definir uma data dentro da lei”, declarou.

Segundo ele, esta foi a primeira reunião formal da categoria com essa finalidade, e o objetivo agora é ampliar o diálogo com outras entidades, cooperativas e associações regionais antes da convocação oficial.

A reunião teve a participação de representantes de estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul. Apenas na Baixada Santista, os sindicatos e cooperativas envolvidos representam milhares de profissionais; um sindicato possui cerca de 5 mil associados, enquanto cooperativas locais somam aproximadamente 10 mil transportadores. A Abrava, por sua vez, reúne cerca de 35 mil caminhoneiros.

A mobilização envolve não só caminhoneiros autônomos, como também motoristas contratados por empresas, o que aumenta o alcance e o possível impacto da paralisação. Segundo Landim, existe a possibilidade de adesão de transportadoras, uma vez que toda a cadeia logística tem sido impactada.

“Todos estão enfrentando a mesma dificuldade. As transportadoras alegam não conseguir repassar o custo porque os contratantes não pagam, e o autônomo que trabalha para elas também está sofrendo”, explicou.

Impacto do aumento do diesel e a insatisfação dos caminhoneiros

O principal motivo de descontentamento é o aumento recente do preço do diesel. Dados do painel da ValeCard revelam que o diesel S-10, o mais utilizado no país, acumulou um aumento de 18,86% desde 28 de fevereiro, período marcado pelo início da guerra no Oriente Médio, que envolve Estados Unidos, Israel e Irã. O diesel comum teve um aumento ainda maior, ultrapassando os 22% no mesmo período.

Ademais, a gasolina teve um aumento de cerca de 10% e o etanol de quase 9%, o que reflete o cenário internacional de pressão sobre o petróleo e seus derivados.

De acordo com o CEO da empresa, Alan Neto de Ávila, o momento é de grande incerteza no mercado de combustíveis, tanto em relação aos preços quanto à disponibilidade em algumas regiões do país.

“O aumento das tensões internacionais trouxe um cenário de muita incerteza, não só sobre o comportamento dos preços, mas também sobre a disponibilidade de combustível em certas regiões”, afirmou.

A ferramenta da ValeCard, que monitora o abastecimento em cerca de 25 mil postos no Brasil, também indica instabilidade nos preços e a possibilidade de restrições pontuais de abastecimento, o que aumenta a preocupação do setor.

Entre os caminhoneiros, as reclamações vão além do aumento. Há relatos de grande variação de preços em pequenas distâncias, o que reforça a percepção de práticas abusivas.

“A cada dois quilômetros, encontramos um preço diferente. Cheguei a ver o diesel a R$ 6,29 descendo para Santos. O governo precisa fiscalizar as distribuidoras e revendedoras”, disse Chorão.

Outro problema crescente é a limitação no fornecimento. Em algumas regiões, postos passaram a estabelecer cotas de abastecimento entre 200 e 300 litros por caminhão, o que dificulta as operações de longa distância.

“Alguns postos já estão fazendo cota porque muita gente está com medo de o preço subir mais e vai abastecer várias carretas de uma vez”, relatou.

Impacto no agronegócio e setores produtivos

Essa situação já afeta diretamente os setores produtivos, em especial o agronegócio. O aumento do diesel e a dificuldade de abastecimento comprometem atividades como o plantio do milho safrinha e a finalização da colheita da soja, além de elevar os custos logísticos em toda a cadeia.

O presidente da Federação dos Caminhoneiros Autônomos de Cargas em Geral do Estado de São Paulo, Everaldo Bastos, afirma que existe preocupação com o risco de desabastecimento e com a inviabilidade econômica da atividade.

Segundo ele, as entidades sindicais estão mobilizadas e avaliam formas de apoio ao movimento, diante do cenário considerado crítico para o transporte rodoviário.

Medidas do Governo Federal e reivindicações da categoria

Paralelamente, já existem paralisações pontuais em diversas regiões do país, organizadas por sindicatos e grupos independentes. Esses movimentos são considerados um sinal de que a mobilização pode se expandir em nível nacional nos próximos dias.

Outro ponto crucial de insatisfação é a avaliação de que as medidas tomadas pelo governo federal não tiveram efeito prático. Em 12 de março, foi anunciado um pacote emergencial com a isenção de PIS e Cofins sobre o diesel, além de subsídios a produtores e importadores, com o objetivo de reduzir o preço em até R$ 0,64 por litro.

Contudo, no dia seguinte, a Petrobrás anunciou um aumento no preço do diesel nas refinarias de aproximadamente R$ 0,38 por litro, com um aumento de 11,6% no diesel A, o que, segundo os caminhoneiros, anulou completamente os efeitos da redução tributária.

A estatal justificou o reajuste com base no aumento do petróleo no mercado internacional, impulsionado pelo conflito no Oriente Médio.

Além disso, o governo federal informou que pretende intensificar a fiscalização da cadeia de combustíveis, com a integração de dados da Receita Federal e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a fim de identificar possíveis distorções e práticas abusivas na formação de preços.

Mesmo assim, existe um forte ceticismo entre os caminhoneiros. Segundo Landim, o diálogo com o governo tem sido constante, mas sem decisões concretas.

Outro ponto de reivindicação da categoria é o cumprimento da Lei 13.703 de 2018, que estabelece o piso mínimo do frete. De acordo com os caminhoneiros, existem falhas na fiscalização por parte da Agência Nacional de Transportes Terrestres, o que faz com que muitos profissionais aceitem valores abaixo do mínimo para não perder trabalho.

A categoria também solicita medidas como a isenção de pedágio para caminhões vazios e maior rigor na fiscalização de distribuidoras e postos.

O movimento acontece em um contexto mais amplo de tensão entre o governo federal e os estados. Recentemente, governadores recusaram um pedido para reduzir o ICMS sobre o diesel, alegando perdas anteriores de arrecadação e argumentando que as reduções nem sempre são repassadas ao consumidor final.

Dados nacionais da categoria

Atualmente, o Brasil possui cerca de 790 mil caminhoneiros autônomos e aproximadamente 750 mil motoristas contratados. A dimensão da categoria faz com que qualquer paralisação tenha potencial para gerar impactos significativos no abastecimento, na inflação e na economia como um todo.

Diante desse cenário, as lideranças afirmam que o movimento está em estado de alerta. Novas reuniões devem acontecer nos próximos dias e, caso haja consenso entre as entidades, uma paralisação nacional poderá ser oficialmente convocada.

“Se todos concordarem, informaremos a data. A paralisação é a única maneira que o caminhoneiro tem de lutar pela sobrevivência”, concluiu Chorão.

*Informações da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores e Notícias Agrícolas

Original em RCN 67

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