Curadoria Inteligente
14/03/2026 | 6 min leitura

Hospital Regional da Costa Leste de Três Lagoas realiza a 1ª cirurgia de Parkinson via SUS em MS

Procedimento inédito de estimulação cerebral no SUS em MS pode reduzir em até 80% o uso de medicamentos para Parkinson.

Hospital Regional da Costa Leste de Três Lagoas realiza a 1ª cirurgia de Parkinson via SUS em MS

Procedimento de estimulação cerebral tem potencial para diminuir em até 80% a necessidade de medicamentos para o tratamento da doença de Parkinson

Um marco no tratamento da doença de Parkinson foi alcançado no Mato Grosso do Sul com a primeira cirurgia de implante de eletrodos para estimulação cerebral realizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na rede pública estadual. O procedimento foi efetuado no Hospital Regional da Costa Leste Magid Thomé, em Três Lagoas (MS), administrado pelo Instituto Acqua em colaboração com a Secretaria de Estado da Saúde (SES).

O paciente que se beneficiou desse procedimento foi o servidor público aposentado Gilberto Barbieri, de 58 anos, residente em Nova Andradina (MS), cidade a 260 quilômetros de Três Lagoas. Ele convive com os sintomas da doença há aproximadamente 15 anos, que se manifestaram inicialmente com tremores nas mãos e evoluíram para restrições motoras mais acentuadas ao longo do tempo.

A DOENÇA DE PARKINSON

A doença de Parkinson é uma condição neurológica crônica, degenerativa e progressiva que afeta os movimentos, causando tremores em repouso, rigidez muscular, lentidão dos movimentos e instabilidade postural.

No caso de Gilberto, a doença se manifestou com um tremor nas mãos. Essa preocupação o levou a buscar assistência médica e, após exames e consultas em hospitais em sua cidade, Campo Grande, Dourados e São Paulo, ele foi diagnosticado com a doença de Parkinson.

Desde então, sua rotina sofreu mudanças significativas. Atividades cotidianas simples passaram a demandar mais esforço. “Não possuo mais a vitalidade de antes. Tudo piorou em minha vida com o surgimento da doença”, ele relata.

Há mais de uma década, ele depende de medicamentos para controlar os sintomas da doença, tomando doses ao longo do dia em intervalos de aproximadamente três horas. Apesar de auxiliarem no controle do Parkinson, os medicamentos também acarretam efeitos colaterais, como movimentos involuntários constantes, levando à perda de peso.

“Quando o efeito do medicamento cessa, entro no que os médicos denominam estado ‘OFF’, no qual penso no movimento, mas meu corpo não responde e ocorre uma paralisação”, ele explica.

Para ele, a cirurgia representa a possibilidade de reduzir a quantidade de medicação e recuperar parte da sua qualidade de vida. “O que almejo é reduzir os medicamentos e ter maior controle sobre meu próprio corpo”, ele afirma.

Como Funciona a Cirurgia

O procedimento realizado no hospital consiste no implante de eletrodo para estimulação cerebral, uma técnica empregada em casos específicos e mais graves de Parkinson para auxiliar no controle dos sintomas motores.

A cirurgia envolve a implantação de eletrodos em áreas profundas do cérebro responsáveis por regular os circuitos relacionados ao controle dos movimentos. Conforme explica o médico neurocirurgião Eduardo Cintra Abib, responsável pelo procedimento, os eletrodos são implantados em uma região denominada núcleo subtalâmico.

“Inserimos um eletrodo em cada lado do cérebro, pois cada hemisfério controla o lado oposto do corpo. Durante a cirurgia, o paciente permanece acordado para que possamos testar os movimentos e identificar o ponto exato de estimulação que alivia sintomas como tremor e rigidez”, ele detalhou.

Após o implante, os eletrodos são conectados a um pequeno dispositivo similar a um marca-passo, implantado na região do peito. O dispositivo envia impulsos elétricos ao cérebro, auxiliando na regulação da atividade responsável pelos movimentos.

O neurocirurgião esclarece que nem todos os pacientes com Parkinson são elegíveis para esse tipo de cirurgia. Existem critérios médicos para a indicação, como um mínimo de cinco anos de tratamento, ter utilizado diferentes tipos de medicamentos e estar em um estágio da doença em que os remédios já não controlam adequadamente os sintomas. Nesses casos, a cirurgia surge como uma alternativa de tratamento. Segundo o especialista, a técnica pode reduzir em até 80% a necessidade de medicamentos, além de melhorar significativamente a mobilidade e a qualidade de vida do paciente.

A equipe principal foi composta, além de Eduardo Abib, pelo neurocirurgião Marco Aurélio Fernandes Teixeira, os anestesistas Ariane Freitas Neves e Walter Chimello Balhester e os profissionais de enfermagem Raisa Carvalho Batista e Felipe Gabriel Rocini Araújo.

Recuperação e Acompanhamento

Após o procedimento, realizado em 05 de março, Gilberto permaneceu um dia na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e mais dois dias em observação, recebendo alta hospitalar em 8 de março. Em duas semanas, ele retornará ao hospital para a etapa de programação do dispositivo implantado, momento em que serão realizados os ajustes iniciais da estimulação.

“O sistema dispõe de vários pontos de contato no eletrodo. A corrente elétrica pode ser direcionada para áreas específicas, de acordo com os sintomas predominantes de cada paciente, como tremor, rigidez ou instabilidade. No retorno, avaliaremos sua rotina e ajustaremos o dispositivo conforme necessário”, enfatizou Eduardo.

Expectativa de uma Nova Rotina

Para Gilberto, a cirurgia representa a chance de recuperar a autonomia e retomar atividades que se tornaram mais difíceis nos últimos anos. “Desejo realizar atividades simples sem depender dos remédios, sem tremer ou ficar paralisado. Quero viajar, pescar, visitar minha irmã que reside em uma fazenda em Pontes Lacerda, no Mato Grosso, e pegar meus netos no colo sem receio de derrubá-los”, ele expressa.

A esposa, Elcia Oliveira Umbelino Barbieri, de 56 anos, casada com Gilberto há 36 anos, acompanhou todo o processo e também encara a cirurgia com esperança.

“Atualmente, sou o motorista dele. Evitamos sair de casa, receamos ir a eventos, festas, pois tememos que o efeito do remédio cesse e ele congele ou comece a tremer em público. As pessoas ficam observando e a situação é constrangedora, por isso, frequentemente preferimos ficar em casa, em certas ocasiões. Agora, temos esperança de que a vida retorne a ser mais tranquila”, ela compartilha.

Um Marco para a Saúde Pública de MS

Para o diretor técnico do Hospital Regional da Costa Leste Magid Thomé, Marllon Nunes, a realização do procedimento representa um avanço significativo para a saúde pública do estado.

“Este procedimento representa um avanço para o SUS em Mato Grosso do Sul. Oferecer uma cirurgia de alta complexidade como a estimulação cerebral profunda demonstra a capacidade técnica do hospital e reforça seu papel como referência regional e estadual em assistência especializada, ampliando o acesso da população a tratamentos inovadores”, ele enfatizou.

Original em Perfil News

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