AGÊNCIA BRASIL – O ato de brincar é um direito fundamental, assegurado tanto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) quanto pela Convenção sobre os Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (ONU). A celebração do Dia Mundial do Brincar, ocorrida na última quarta-feira (28), fomentou diversas atividades em todo o país, além de incitar importantes reflexões sobre o papel das brincadeiras no desenvolvimento humano, com ênfase no público infantil.
A Agência Brasil entrevistou Sarah Menezes Rocha, pesquisadora, professora universitária especialista no assunto, mãe de uma bebê de 1 ano, formadora de docentes e conselheira da Aliança pela Infância, movimento internacional que defende a infância e comemora a data no Brasil há duas décadas.
Em um manifesto divulgado nas redes sociais na semana anterior, a Aliança enfatizou que o brincar é a principal forma de a criança "existir, se expressar, elaborar sentimentos e compreender o mundo".
A organização também alertou sobre a importância de reservar tempo para as brincadeiras, especialmente em um mundo cada vez mais dominado por telas.
Segundo o manifesto, é no brincar livre que as crianças se desenvolvem, estabelecem vínculos e encontram o outro, aprimorando sua humanidade. O brincar é a maneira da criança participar da sociedade, expressando sua cidadania de forma democrática.
As atividades em celebração ao Dia Mundial do Brincar se estendem até domingo (31). A Aliança pela Infância disponibilizou em seu site uma agenda nacional com eventos em escolas, coletivos, organizações e comunidades, convidando a sociedade a se engajar na defesa desse direito.
Agência Brasil: O que define o brincar? Qual a sua real importância?
Sarah Menezes Rocha: O brincar é a linguagem da infância, a forma como a criança interage com o mundo, com os outros e consigo mesma. Brincando, a criança não apenas se diverte, mas experimenta o mundo, imagina, cria hipóteses, sente emoções, constrói vínculos e traduz a cultura.
No Brasil, o brincar é diverso, com particularidades em cada região. As crianças são produtoras de cultura dentro da vasta cultura brasileira.
Agência Brasil: Existe limite de idade para brincar?
Sarah Menezes Rocha: Não. O brincar nasce na infância e permanece conosco para sempre. É importante que os adultos mantenham a sensibilidade para acessar a criança interior.
Agência Brasil: O brincar é fundamental na formação humana?
Sarah Menezes Rocha: O brincar é um espaço valioso para a construção do ser humano. Através da brincadeira, a criança aprende a negociar, esperar, lidar com situações e conflitos. O brincar é essencial para a formação humana.
Agência Brasil: Como o brincar está sendo aplicado na educação infantil, conforme estabelecido pela Base Nacional Comum Curricular?
Sarah Menezes Rocha: A Aliança pela Infância observa trabalhos excelentes em escolas e espaços não escolares. No entanto, no ensino fundamental, prevalece a ideia de que a criança deixa de ser criança.
As disciplinas ocupam o espaço antes dedicado à brincadeira, que é essencial e precisa ser reconhecida no currículo.
Existe um risco de escolarizar precocemente a infância, antecipando conteúdos e cobranças, o que é prejudicial. A criança precisa do espaço da brincadeira, inclusive no ensino fundamental.
Agência Brasil: As escolas estão preparadas para incentivar o brincar?
Sarah Menezes Rocha: Existe uma grande pressão por desempenho nas escolas, e é preciso discutir isso com responsabilidade.
Vivemos uma antecipação da lógica produtivista na infância, com crianças sendo vistas como "seres produtores". Muitas crianças têm excesso de atividades dirigidas, metas e estímulos, e pouco tempo para experiências livres.
O problema não está apenas na escola, mas na comunidade. É necessário um compromisso comunitário e social com o brincar, com ações nas escolas, famílias e políticas públicas.
Agência Brasil: Como incentivar o brincar?
Sarah Menezes Rocha: É preciso garantir tempos menos acelerados para as crianças, valorizar experiências ao ar livre, ocupar espaços seguros nas cidades, cobrar segurança das autoridades, promover brincadeiras coletivas e incluir as crianças sempre.
É fundamental ampliar o espaço de escuta, pois as crianças sabem como abrir espaço para o brincar livre. O desenvolvimento humano saudável ocorre quando oportunizamos espaços para que a criança seja criança.